Maia Praia, novembro de 2011

No momento em que volto a esta página, depois de mais uma longa ausência, posso dizer que algumas coisas mudam ou mudaram, aqui, enquanto outras continuam como sempre foram. Parece redundante dizer isso, já que em todos os lugares é assim que acontece.  Mas não custa dizê-las, pelo menos algumas!

As garcinhas brancas, que costumam vir para cá durante o inverno, já se foram, como acontece todo ano; as gaivotas continuam na praia, tagarelando, embora em menor número agora, o que também acontece todo ano;  os peixes continuam diminuindo em tamanho e em quantidade; o Rio Perequê continua formando os seus meandros, como sempre o fez, para dificultar a entrada das águas salgadas do mar em seu leito; o mar continua com aquela cor verde, o que fez chamar a região de Costa Esmeralda; o clima continua a ser um dos melhores de Santa Catarina, o que ele já é há muitos e muitos anos.

Muda/aumenta a sujeira na praia e nas ruas; veem-se construções de prédios e de casas cada vez em número superior, e, aos poucos, a dmiminuir a nossa visão do mar e das matas que cobrem grande parte dos morros aos redor; aumenta o número de pessoas, de carros e de motos, aproximando nossa cidade de todas as outras; estende-se para cá o roubo, o furto, o arrombamento de cofres em bancos e caixas eletrônicas, o que também não é nada estranho em tantas cidades do Brasil; ultimamente o Prefeitura voltou a apresentar obras, depois de um período de letargia ( será que é por causa da aproximação de mais um ano eleitoral?? ou seria eleitoreiro?? ): está sendo feito mais um pedaço do calçadão, agora também aqui na saída da nossa rua para o mar (quando estiver pronto tentarei de me lambrar de tirar e colocar neste espaço uma foto); uma outra obra, falada há dois ou três anos, finalmente começou a ser implantada, é a Macrodrenagem; algumas construtoras ( principalmente uma) parecem tirar dinheiro da manga (ou!!), e modificam rapidamente o aspecto de nossa urbe; compram-se mais apartamentos do que nunca – parecendo que os mais caros são os mais facilmente negociáveis; fala-se em mudar mais uma vez o trânsito, sem alterar muito o número e as características das ruas e avenidas existentes. Em suma, tudo o que se faz em qualquer cidade deste Brasil.

Não devo ter colocado tudo que permanece igual nem tudo que está mudando. Cada um acaberá percebendo que falta aquela graça própria a cada um, percebido por muitos, que os faz querer morar aqui ou, pelo menos,  passar um tempinho todo ano aqui.

Não falei das minhas orquídeas que continuam bonitas, brindando-nos com belas florações durante o ano de 2011 ( Tentarei de me lembrar também de colocar nesta página algumas fotos tirei).

E é assim o dia a dia nosso. Alguns acharão monótono; outros acharão estimulante. Para mim continua sendo um convite à modorra, à lassidão. Espero que não interpretrem isso como uma desculpa para as longas ausências minhas desta página. Estou nessa dos franceses: “laissez faire” . Se estiver escrito errado o meu francês, é mais uma decorrência dos mesmos fatos: por que ir a um dicionário?!!

A Volta

Depois de mais um tempo afastado desta página, volto.  Estive por um mês em São Paulo e fiz algumas pequenas viagens por aí. Volto com o frio tomando conta de todo o Sul; aliás, em São Paulo, peguei mais de vinte dias de frio também.

Volto num momento (?) negro da política brasileira, apesar dos dizeres contrários do governo e seus defensores…  Negro, porque estamos caminhando para uma copa do mundo e a preparação para os jogos olímpicos. Negro, porque os dois fatos dão asas à imaginação dos arrombadores de sempre dos cofres públicos.  Negro, porque a educação continua em situação precária, assim como a saúde, a segurança…   Os políticos querem os jogos, não o compromisso sério com as necessidades do povo em geral. É triste.

Aqui, como já disse, o frio tomou-nos de assalto. Estamos com temperaturas beirando os cinco graus, de madrugada. No Planalto canatarinense, faz tempo que não se vê tanta geada. O que não quer dizer que nunca tivemos período tão prolongado de frio. Lembro-me de que num inverno dos anos 80 tivemos mais de vinte dias seguidos de geada. Lembro também que, em 1974, quando fui trabalhar na universidade lá em Caçador, na primeira semana de agosto chegou a fazer oito graus negativos.

Em Santa Catarina, os professores estão discutindo agora se voltarão para as salas de aula ou se continuarão com a greve que já dura mais de 50 dias.  Triste os profrissionais da educação terem de chegar a isso.  Lá nos anos 70 e 80 participei muito desses movimentos como professor do Estado de Santa Catarina. Fui do comando de greve, em Caçador, algumas vezes. Ninguém pode imaginar o sentimento desses profissionais levados a abandonar as salas de aula, para ir às ruas para poder ter para si e para a sua família uma vida mais digna. É simplesmente lamentável!!   Mais triste ainda se torna quando os professores são chamados de malandros, de preguiçosos.  A falta de consciência se mostra mais completa, quando ouvimos de pessoas que se dizem nossas amigas:  “Quem escolheu ser professor, sabia que era assim.  Agora aguente.”  É querer dizer que ao se escolher uma profissão, se o deve fazer pelo que se vai ganhar.  Assim, médico é médico, porque ganha bem?  Piloto é piloto, porque ganha salário melhor do que outros?  Advogado é advogado, unicamente porque pretende enriquecer?   Será que não se pode escolher uma profissão porque se gosta desse serviço?  Aliás, para ser professor deve-se ter realmente vocação, gostar de ser. Lembro, apenas para fechar essas digressões, dos longos anos que trabalhei como professor de primeiro e segundo graus e, também, de terceiro grau, na formação de outros professores.  Algumas vezes ( quantas!..), ouvi: gosto da profissão, mas não há como continuar. Tenho família  que depende de mim.

Enfim…..

Discriminação

Levam-me a falar do assunto dois textos que li recentemente.  Na Revista Veja da semana passada ( edição 2212 – ano 44, número15 – de 13 de abril de 2011) J.R. Guzzo, em sua coluna “A mesma alma”, discorre sobre o processo de arrecadação da Receita Federal, em especial, do imposto de renda.  Vale a pena ler a crônica toda. Em determinado momento ele diz:  “A receita continua a mesma: insiste  em ver os contribuintes como marginais em potencial, não respeita os compromissos com eles e impõe a todos um clima de delegacia de polícia.  Hostiliza quem paga mais. É feroz com o pequeno…” O autor ainda discorre sobre outras questões, como a impunidade, a liberdade de expressão, enfim, tudo que de alguma forma rotula e separa.

O segundo é um romance, escrito pelo australiano Markus Zusak “a menina que roubava livros”.  O narrador é a morte – que trata a todos da mesma maneira -  tendo como personagem principal uma menina, Liesel Meminger, e sua vida de 1938 a 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, na Alemanha.  Fica-nos a mensagem clara de que a guerra acontece por pessoas se considerarem diferentes de outras, o que leva a classificá-las, a listá-las de acordo com certas características, principalmente a religião que adotam.  Quando essa situação é explorada por pessoa(s) ou governo(s) com força suficiente para impor suas idéias, chegamos à guerra, alimentado o processo pelo uso de uma boa propaganda, de palavras, portanto.

O caminho é sempre o mesmo. A discriminação é comum a nós humanos. Há uma tendência geral nossa em classificar ou rotular as pessoas. Nós estabelecemos certos esteriótipos: quem é bonito, quem é feio; quem é bom, quem é mau; que idéias são melhores, quais as piores; que religião é a melhor, e qual é a pior.

Estabelecidos esses esteriótipos ou pré-conceitos, passamos a julgar as outras pessoas, a classificá-las, a encaixá-las  em determinadas listas; enfim, a discriminá-las.  Os esteriótipos passam a determinar ( para mais ou para menos ) o nosso discurso, a nossa ação.  Não há como dizer que não temos preconceitos.  Todos os humanos carregam esse peso, fruto do livre-arbítrio.  Temos um apresentador de programa de auditório na TV que constantemente se refere aos preconceitos que as pessoas carregam, dando a entender que ele está livre desse mal; no entanto, no momento seguinte, está rindo de uma piada sobre homossexuais.  Tive o prazer de fazer a revisão da tese de um professor da Unoesc, campus de Joaçaba, sobre os preconceitos na sociedade ocidental, a partir dos gregos e latinos.  O professor é negro, e seu trabalho é sobre o preconceito nas escolas da região de Joaçaba. Preconceitos sofridos pelos “nativos” ( descendentes de portugueses, brasileiros e índios) e infligidos pelos descendentes de alemães e italianos.  É trabalho muito bom, merecendo a leitura de todos, nessa época de bullying . Mas o que interessa: embora o professor de alguma forma se portasse como alguém sem preconceitos, toda vez que nos encontrávamos ele se perfilava, às vezes levantava a mão direita e dizia alto ( para mim) “Heil Hitler”.  Pois é!…

Creio que as religiões tendem a estabelecer distinções entre pessoas, classificando-as. Aliás, eu tive uma experiência muito triste, quando trabalhava como professor de língua portuguesa, em Caçador.  Numa sala de 6ª. Série, um aluno ( católico ) achou-se no direito de chamar duas meninas ( da Assembléia de Deus ) de bruxas, filhas do diabo, e outros mais nomes.  Na mesma escola, durante uma época de missões católicas, a diretoria achou que poderia suspender as aulas e obrigar todos os alunos a irem à igreja, à prédica dos padres.  Partia do princípio de que Deus é o mesmo, para todos, não havendo problemas.  Só não foi mais o mesmo quando um pastor de igreja evangélica lhe sugeriu que, alguns meses depois, as aulas também fossem suspensas, pois haveria missões na igreja deles…

Preconceitos todos temos. Eles moldam o nosso discurso. Ao dizermos que não os temos, está-se configurando o nosso discurso por esse dizer: o de sermos diferentes de todos os outros.  Classificamos. Rotulamos a nós e aos outros.   Creio que o importante em tudo é sabermos dosá-lo, em sabermos respeitar as diferenças.

Sustentabilidade…

Não há como não voltar ao assunto.  Diariamente somos confrontados com essa realidade: “Há um aquecimento da Terra em curso!”

Como já disse aqui, neste espaço, acho que realmente as águas do mar estão mais aquecidas, o que, de certa forma, nos deve preocupar.

Mas dizer que tudo, tudo mesmo, que há de ruim decorre desse fato é, no mínimo, uma apelação. Primeiro porque desde que me conheço, sempre houve bastante chuva e enchentes no Vale do Itajaí, por exemplo.  As maiores delas ocorreram há mais de cem anos.  Citam-se as de 1880 e 1911.  Ouvi muito meu pai falar a respeito de conversas do avô e do bisavô.   Uma delas foi um dilúvio, no vale do Rio do Texto.  Nunca mais, depois, o pequeno rio chegou a níveis tão altos.  E se um dia voltar, dir-se-á que é devido ao aquecimento global?

Não nego esse aquecimento e seus efeitos.  Não, não nego.  Os oceanos aquecerem um grau é muito.  Aquecer dois ou mais é bem pior.  Aliás, já tivemos outros aquecimentos e outros esfriamentos da Terra.   Hoje não há mais dúvida quanto a isso.

Os estragos que acontecem hoje por enchentes devem-se muito mais ao aumento da população humana, que precisa ocupar novos espaços para morar e para  produzir alimentos.   A ocupação desses espaços nem sempre é adequada, principalmente nas cidades e seus entornos : a vegetação nativa é retirada; as terras são removidas para planificações e plenificações, onde construímos casas e indústrias; as bases dos morros sofrem cortes perigosos na construção de estradas e loteamentos, expondo-os a deslizes para a acomodação em novos níveis. Isso sim, é intervenção humana.

Quanto à questão da sustentabilidade, ela deve ser discutida. Mas será que deve ser feita em fóruns como o que ocorreu em Manaus?  Qual é e de que forma é o envolvimento das pessoas que lá apareceram no processo?  E por que elas aparecem em tais eventos? Aliás, o que significa efetivamente sustentabilidade?

Não nos esqueçamos de que daqui a mais alguns anos seremos alguns bilhões do que somos hoje.  Esses novos habitantes desse nosso planeta precisam de alimentos.  Além disso, com o progresso eles exigirão mais bens que melhorem a sua “qualidade de vida”, o que significa a produção de mais  energia e o consequente lançamento de mais gases no ar.  Como podemos receber bem esses novos habitantes, sem alterar para mais o lançamento de resíduos e gases no meio ambiente e na atmosfera?  Aliás, precisamos diminuir esses lançamentos…  Como fazê-lo? Quem quer e pode fazê-lo?

Acompanhei pela TV figuras do mundo todo que estiveram como palestrantes ou visitantes, ou “marcadores de presença” , no Fórum de Manaus. São eles que nos irão ajudar nessa grande empreitada?   Dirão, talvez: Não, mas eles são figuras que podem nos alertar, nos sensibilizar para o problema.  Creio que um habitante lá dos confins do Himalaia ou dos Andes nos  poderá sensibilizar bem mais e nos sugerir o que pode e deve ser feito.  É necessário que estejamos dispostos a fazê-lo.

No mais, catástrofes como as do Japão nos dizem gritando como somos frágeis.Essas manifestações da natureza advêm e são a própria essência da Terra; desse planeta em que é possível desenvolver-se a vida como a conhecemos.  São eventos, no entanto, muito mais destruidores e incontroláveis.  E eles sempre existiram.  Ai de nós, quando não mais acontecerem: a Terra girará em torno do Sol, sem vida…

É hipocrisia dizer que somos culpados de tudo que acontece de ruim neste planeta; e é muita hipocrisia dizer que não somos nada culpados.  É perigoso, isso sim, pensarmos que estaremos nesta Terra para sempre.  Se olharmos para trás ( e a ciência nos confirma isso ), há 750 milhões de anos, 95% dos seres vivos desapareceram, resultado de convulsões e transformações na crosta terrestre. Demorou milhões de anos para a vida se refazer, de forma diversa da anterior.  Há 250 milhões de anos, tivemos outros eventos, desaparecendo mais de 50% dos seres vivos.  Há 60 milhões de anos, a queda de um asteróide, perto do México, acabou com os dinossauros e outros seres vivos: animais e plantas.

Nós, seres humanos, com capacidade para pensar e discernir sobre o nosso futuro, estamos aqui há menos de 200 mil anos.  Somos diferentes dos outros animais?  Somos: sabemos que existimos, sabemos que, um dia, no entanto, devemos deixar este mundo. Tentamos prolongar a nossa estada… melhorá-la… reformulá-la… interferindo na caminhada normal do planeta.  É aqui que precisamos mudar para a sustentabilidade nossa e do planeta.  Como?

É a herança do nosso grande “pecado original” :  saber da nossa existência, ou, como aparece na Bíblia, lá no Gêneses, na história de Adão e Eva “que comeram do fruto da árvores proibida e perceberam que estavam nus.”  Temos a capacidade de discernir, temos o livre arbítrio, queremos viver mais e em maior número. Precisamos “organizar” isso tudo de maneira adequada.

Essa é a grande discussão.

Mimeses

Como puderam observar a minha escolha na eleição presidencial do ano passado não foi a vencedora e, agora, já estamos com a presidente empossada…

O que aconteceu nesse meio tempo.  Deixei esta página por mais de três meses.  Estive em São Paulo, acompanhando o lançamento de mais um número da revista do meu filho, vivendo todas as dificuldades de tal empreendimento.

Vieram o verão, o natal, as visitas, as festas.   E muito calor.  Calor forte, prolongado, que se estende até estes dias de fevereiro de 2011.

Chuvas.  Chuvas fortes. Muita chuva.  Calamidades repetidas de anos anteriores. Maiores de ano para ano.

A água do mar morna. Mais quente do que no verão passado.

Muita gente na praia.  Parece que todo mundo, ou quase todo ele, quer vir para cá.   Sujeira.  Esgoto demais. Esgoto derramado na areia, escorrendo para o mar.

Invasão de caranguejos.  Acho que nunca os tinha visto.  Diferentes…

As mesmas infrações no trânsito. As mesmas causas das mortes nas estradas. A mesma arrogância e a mesma disposição de transgredir.

O ser humano se agredindo, sendo agredido.  A natureza agredida, explorada pela ganância e incompetência humanas.  A natureza respondendo…

Foi o fim de mais um ano e o início de outro.

Segundo Turno 2010

Observamos, a poucos dias do segundo turno das eleições para presidente, que se delinaram, claramente, duas posições.

Não estão elas no trato e nas propostas da economia. Acho que não há muita divergência, pelo menos aqui.  Também não estão no trato e nas propostas para a educação, a saúde, o acesso de mais pessoas ao consumo e a classes mais altas.  Não, não estão aqui as divergências.

As duas posições mais claramente delineadas no segundo turno, e que já vêm sendo observadas há mais tempo, são de ordem política.  O que se deve questionar e observar é a condução do país.

Vislumbramos uma posição de estatização (pelo menos no discurso), de perda gradativa de determinadas liberdades, principalmente a da imprensa, que se instalou no governo em 2003 e pretende continuar por mais algum tempo. Introduziu-se um projeto de poder e não de governo, que vem se aparelhando durante os últimos oito anos. Às vezes em rompantes do nosso presidente; às vezes, e muito mais eficazmente, através de projetos, até com propostas de alteração da constituição.

Daí o empenho do próprio presidente da República na eleição de sua candidata/sucessora.  Daí também fatos antigos, como a criação de dossiês, e recentes, como o acontecido no Rio de Janeiro, com o candidato da oposição.  Não falo aqui do fato em si, mas do que o presidente disso a respeito. Não foi um governante falando, foi um chefe de um partido falando, usando os poderes da Presidência.  Além disso, preocupa o que disse a candidata do presidente a respeito.

Paralelamente a essas ações de “permanência” no poder, busca-se minar as bases da democracia, cooptando o Legislativo, o Judiciário, além de muitos da imprensa.

Considera-se que a imprensa que não se rende a estes afagos, ao publicar dados desairosos e incriminadores de pessoas do governo, está ofendendo esse governo.

Isso já ocorreu na instalação de outros governos com o mesmo projeto de poder: Comunismo, Nazismo, Getulismo, assim agiram. No nosso caso, faltaria pouco para se instalar um Petismo.  Assim como em outros ismos, aqui se passou ao endeusamento do mandatário,  permitindo-se dizer que ele é o pai ( ou a mãe) da nação…   Permite dizer, também,  que “quem fala mal da Dilma, fala mal do Brasil”, confundindo-se o dirigente com o ente dirigido.  Nesses casos a voz e as idéias do dirigente tornam-se verdades e as únicas verdades.

Há tantas outras coisas que poderiam ser citadas e percebidas. Mas, infelizmente, grande parte da população nem sempre percebe os fatos dessa maneira.  Sempre se pensa que as coisas podem ser mais fáceis com um “salvador da pátria”.

Bem, como já disse, há duas posições em julgamento.  A segunda é a que nos oferece um contraponto para a reflexão, para não cairmos no discurso fácil e demagógico.  Ela é oposição ao atual governo e à sua candidata, exatamente porque rejeita aquelas propostas que nos possam levar a uma ditadura ou coisa parecida.

É a posição da imprensa livre, da independência dos Poderes e da causa verdadeiramente democrática.

Neste momento, está sendo difícil sustentar tal posição, mas já foi feito no primeiro turno, levando a eleição para o segundo turno e, no próximo domingo, espero, para uma definição vitoriosa da democracia.

Lauro Junkes

Recebemos, com pesar, a notícia de que o professor Lauro Junkes morreu nesse dia 20 de outubro de 2010.  Grande perda para a literatura e a crítica literárias catarinenses.  Está nos jornais o que ele fez e escreveu.

Lembro-me de quando o conheci, lá nos idos anos 1973, 1974.   Estávamos todos fazendo o nosso curso de mestrado. Ele em Literatura e Crítica Literária, eu na Linguistica.  Como havia disciplinas consideradas de áreas conexas, acabei fazendo algumas junto com o pessoal que fazia o mestrado em Literatura.   Sério, compenetrado, absorvido ele assistia às aulas.  Vicente Athaíde, hoje morando e trabalhando em Sergipe (ou Alagoas) era o professor. Marcas ficaram daqueles tempos.  Estavam lá  alunos e depois professores de várias regiões e universidades do Brasil. De Blumenau, formávamos um trio: o Demerval Mafra, o José Campestrini  (o Zeca Campestrini) e eu.

Terminado o curso, fui para Caçador, enquanto o Lauro permaneceu na UFSC.  Escreveu várias obras, principalmente sobre a Literatura Catarinense, destacando-se, a meu ver, O Mito e o Rito, de 1987.

Levei-o uma vez a Caçador, para uma palestra.

Já no início dos anos 2000, esteve em Joaçaba, onde eu trabalhava nessa época, a esposa do Lauro: Terezinha Kuhn Junkes. ela também professora da UFSC, lecionando linguística.

E, agora, recebemos essa notícia de que Lauro Junkes faleceu, no último dia 20, ao meio dia, de complicações resultantes de um câncer.

Ficamos nós, lamentando a sua ida prematura aos 68 anos.

Governo do Brasil

” Por que deveríamos aceitar a liberdade de expressão e de imprensa?  Por que deveria um governo, que está fazendo o que acredita estar certo,  permitir que o critiquem ?  Ele não aceitaria a oposição de armas letais. Mas ideias são muito mais letais que armas.”

Em outras palavras: tudo o que nós fazemos e dizemos é verdade, é certo.  Como estamos certos, não podemos ser criticados; não podemos admitir que nos digam que estamos errados. E, por isso, quem o diz deve ser desacreditado, deve ser banido.

De quem vocês acham que é a frase acima?   São tantos os que a poderiam ter dito, não é?  Desde os déspotas esclarecidos, até governantes de hoje.  Até poderia ser atribuído a nosso atual governo, não poderia?   Nós sempre estamos certos e os que se nos opõem estão errados.  Devem ser desacreditados, como está sendo feito neste país pelo atual governo;  fala-se, inclusive, como se o Brasil tivesse começado agora, em 2003.  Nunca se fez nada. Assim, também, nestes meses de campanha eleitoral. Há uma constante reafirmação disso.

Os adversários que, eventualmente, chamam a atenção do povo para o que está acontecendo são desacreditados.  O que é mentira  vira verdade, e o acusador da  mentira vira réu. Basta olharmos o que está acontecendo com os vár ios escândalos que aconteceram e acontecem neste governo.  Precisamos ler jornais e revistas que se oponham a este governo, para não cairmos na insensatez da Venezuela, de Cuba e de outros regimes ditatoriais.

A condução política do Brasil de hoje me faz lembrar muito o que se dizia, logo depois de Hitler ter sido eleito para o Parlamento e depois alçado a primeiro ministro, o Führer ( ou seja, o guia ). Diziam alemães espalhados pelo mundo, inclusive aqui no Brasil: “O Führer nos chama; precisamos voltar para a Alemanha, atendendo o seu chamado”.  Quantos atenderam o chamado e quantos deles acabaram morrendo nos campos de batalha na Segunda Guerra Mundial.

Conversei, neste final de semana, nos confins de uma praia da região, com uma pessoa simples, crédula. Ele  me perguntou a respeito da eleição. Quanto ao Governo Federal, ele estava certo, indubitavelmente, de que não se poderia votar em nenhum outro candidato que não fosse o do Lula, o que me parece idêntico ao que aconteceu com os alemães em relação a Hitler.

Perguntei de quem teria sido a frase do início deste texto.  Foi de Lenin, Premier da antiga União Soviética, mas poderia ter sido de tantos outros, mesmo de alguns aqui de dentro do nosso país, não acham?

O que me atemoriza é a inércia da maioria da população.  Esse poder que se construiu e continua sendo construído no Brasil teve nosso apoio, até meu.  Lembro-me de 2002, das eleições para o Senado daquele ano, quando alunos meus me perguntavam em quem poderiam votar. E eu lhes disse que votassem na Ideli, que poderia ser uma candidata a modificar o Senado, a enfrentar os velhos caciques aí instalados.   Quanto decepção: ela foi eleita e, ao invés de lutar contra as velhas estruturas, aliou-se a elas, fortalecendo os corruptos, os salafrários, como Collor, Sarney, Renan Calheiros, etc.

Tudo para construir não uma nação, mas um projeto de poder para vários anos.  Peço desculpas aos meus alunos daquela época. A intenção era boa, os resultados, no entanto, são devastadores.

ENEM – Amem!!

Leio, constantemente, o uso dos resultados do ENEM para a divulgação de Escolas Particulares de Ensino Médio.  Há, por exemplo, a do Colégio Integrado Objetivo, de São Paulo.  Segundo eles, o Colégio está em primeiro lugar, nas provas das quatro áreas do conhecimento realizadas pelo ENEM: Linguagens, Matemática, Ciências Humanas, Ciências da Natureza e, ainda, nas Objetivas. Apenas em Redação ficou em segundo, mas ainda poderá alcançar o primeiro lugar, já que estão questionando a nota de uma de suas alunas.

Nada contra que se usem esses resultados para fazer propaganda do curso. Isso, no entanto, só acontece, porque o ENEM está sendo usado para aprovar o aluno para o ingresso em Universidades.  Lembro que o referido colégio é particular, cobra mensalidades em torno de R$2.500,00, tem poucos alunos ( em torno de 130, em três ou quatrro séries), os que fizeram a prova do ENEM são pouquíssimos, não chegando a 20, os alunos passam por uma seleção para estudar na escola ( só os melhores são aceitos), o colégio oferece tempo integral.  Parece-me ser quase impossível qualquer escola pública competir com eles.  O Colégio que está em primeiro lugar, um pouco acima do Objetivo, também é particular e de São Paulo.

O que quero questionar é a validade da Prova do ENEM para o ingresso na Universidade.  Ao que tudo indica, ele veio apenas substituir o Vestibular.  Mais uma vez, as melhores vagas ficam com as escolas particulares. Em outras palavra, pouco mudou.

Algumas Universidades Públicas do Estado de São Paulo, como a USP, a UNICAMP  ( não são federais e sim estaduais) não fizeram uso da nota do ENEM para o ingresso em seus cursos, no ano passado, mormente depois do problema que houve com essas provas.

Considero que essa prova perdeu a sua característica maior que deveria ser a avaliação do Ensino Médio, servindo como norteador do trabalho dos professores nas escolas de Segundo Grau.  Nesse sentido, o antigo PROVÃO, a meu ver, era melhor. Era melhor, inclusive, para orientar os Cursos Superiores preparadores e formadores de professores para atuar no Ensino Médio.

Como está, o ENEM  só serve mesmo como elemento de controle e, principalmente, de classificação dos candidatos para a entrada na universidade.  Tanto é verdade isso, que os cursos de Ensino Médio particulares acabaram se tornando cursos de preparação para o “Vestibular/ENEM”…  Ademais, já existe propaganda de venda de apostilas e de aulas via internet para a preparação dos alunos ( os que já fizeram ou estão fazendo o Ensino Médio) para enfrentar a prova do ENEM.  Amém!!.

Blumenau

É dois de setembro de 2010.   Blumenau comemora 160 anos de existência.  Parabéns a todos os Blumenauenses.

Nasci lá também.  Em 1944.  O município já era forte no comércio e na indústria, naquele tempo.  Hoje, a cidade está bem mais crescida, abrigando muitos de outras cidades de Santa Catarina e de outros estados.  Eu fiz o caminho inverso. Saí de Blumenau, andei pelo Meio Oeste catarinense.  Não deixava de voltar, e continuo voltando, à minha cidade natal.

Tecem-se loas às belezas da cidade. Acho que realmente isso pode e deve ser feito.  Mas eu quero lembrar um pouco a Blumenau de minha infância e de minha juventude.  E, aí, devo voltar a Testo Salto, hoje um dos bairros da cidade. Nos linginquos anos 40 e 50, era zona rural.  Estrada de chão. Tifas bucólicas para todos os lados.

Mandávamos fazer musse e melado, lá no Scheldesbach. Cortávamos a cana, preparávamos as frutas – tangerinas e carambolas – e, carregada a carroça, levávamos esses produtos até os tachos. Alguns dias depois, voltávamos lá para trazer o mussi – quatro latas de querosene, de 25kg cada – ou de melado. Era no inverno; fazia frio.  Homens, mulheres e crianças e mais os cavalos soltavam fumaça pelas narinas…

No verão, íamos os vários primos até a casa uma tia que morava no Selkental – outra tifa.  Ìamos pescar, comer goiabas enormes, ingás amarelinhos e doces, bacobaris, abacaxis e outras tantas frutas. Como os estoques de milho estavam baixos, púnhamo-nos a caçar os ratos, antes que entrasse a safra nova, colhida logo após o Natal.  Ao meio-dia, minha tia oferecia um lauto e farto almoço: marreco ( mula ) recheado, carne de porco, aipim, manguereta,  arroz.  E o pão, ah o pão, de milho e cará, assado em forno a lenha em cima de folhas de bananeira.  Simples, mas muito gostoso.

Havia ainda as pescarias de cará, com anzol, no Rio do Testo.   As de cascudo, à noite, com tarrafa.  Quanto peixe bom se pescava e comia!!

Cresci.  Passei a estudar na cidade, no Colégio Santo Antônio.  Depois passei ao segundo grau – o curso técnico em contabilidade. Servi o exército, comecei a trabalhar na cidade.

Mas isso, contarei em outra oportunidade.